Como faz ultrassonografia

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A ultrassonografia é um dos procedimentos diagnósticos mais seguros e acessíveis da medicina moderna, mas muitos profissionais de saúde desconhecem os detalhes técnicos envolvidos em como faz ultrassonografia e, principalmente, as responsabilidades de radioproteção associadas. Diferentemente de técnicas que utilizam radiação ionizante, o ultrassom emprega ondas sonoras de alta frequência, o que reduz significativamente os riscos ao paciente e ao operador. Porém, isso não elimina a necessidade de protocolos rigorosos de qualidade e conformidade regulatória, especialmente quando se trata de equipamentos, calibração e documentação exigida pela ANVISA e CNEN.

Para clínicas, consultórios e centros de diagnóstico por imagem que oferecem ultrassonografia, compreender o processo técnico completo é essencial para garantir diagnósticos precisos e cumprir as normas de física médica aplicáveis. Desde a preparação do equipamento até a execução do exame, cada etapa demanda conhecimento especializado e controle de qualidade adequado, assegurando que o procedimento atenda aos padrões de segurança e eficácia esperados pela regulação sanitária brasileira.

O que é ultrassonografia e como funciona o exame

A ultrassonografia é um método de diagnóstico por imagem que utiliza ondas sonoras de alta frequência para criar imagens detalhadas das estruturas internas do corpo humano. Diferentemente de exames como a radiografia convencional ou a tomografia computadorizada, a ultrassonografia não utiliza radiação ionizante, o que a torna uma das modalidades de imagem mais seguras disponíveis na medicina moderna. Por isso, é amplamente indicada para gestantes, crianças e pacientes que precisam de monitoramento contínuo.

Princípio das ondas sonoras: como o aparelho gera imagens

O aparelho de ultrassom funciona com base no princípio do efeito piezoelétrico. Um transdutor — também chamado de sonda — emite pulsos de ondas sonoras com frequências entre 2 e 18 MHz, muito acima do limite audível pelo ouvido humano (20 kHz). Essas ondas penetram nos tecidos e, ao encontrar interfaces entre estruturas de densidades diferentes (como entre músculo e gordura, ou entre líquido e órgão sólido), parte da energia é refletida de volta ao transdutor.

O equipamento capta esses ecos, calcula o tempo que cada reflexo levou para retornar e converte essas informações em uma imagem em tempo real exibida no monitor. Estruturas mais densas, como ossos, refletem quase toda a energia e aparecem em branco (hiperecogênicas). Líquidos, como a urina na bexiga, transmitem as ondas sem reflexão e aparecem em preto (anecogênicos). Tecidos moles apresentam tons de cinza intermediários.

Diferença entre ultrassom, ultrassonografia e ecografia

Ultrassom refere-se à tecnologia em si — as ondas sonoras de alta frequência. Ultrassonografia é o exame diagnóstico que utiliza essa tecnologia para gerar imagens, sendo o termo mais correto do ponto de vista técnico e o mais usado no Brasil. Ecografia é sinônimo de ultrassonografia, preferido em países de língua espanhola e também utilizado em algumas regiões do Brasil, especialmente para exames cardíacos (ecocardiograma). Na prática clínica, os três termos são usados de forma intercambiável pela população, mas o profissional de saúde e o laudo formal sempre utilizarão “ultrassonografia”.

Passo a passo de como é feita a ultrassonografia

Entender o que acontece durante o exame reduz a ansiedade do paciente e ajuda a garantir que o preparo seja feito corretamente, o que impacta diretamente na qualidade das imagens obtidas.

Posicionamento do paciente e aplicação do gel condutor

O paciente é posicionado em uma maca, geralmente em decúbito dorsal (deitado de costas), mas o posicionamento varia conforme a região a ser examinada. Para exames de abdome, o paciente permanece com o abdome exposto. Para exames transvaginais, é necessário retirar a roupa da parte inferior do corpo e posicionar os pés em estribos.

Antes de iniciar a varredura, o técnico ou médico aplica um gel condutor à base d’água diretamente sobre a pele do paciente na região de interesse. Esse gel tem função essencial: eliminar o ar entre a sonda e a pele. Como as ondas sonoras não se propagam bem pelo ar, qualquer bolsa de ar entre o transdutor e a superfície corporal criaria artefatos ou impediria a formação da imagem. O gel é incolor, não mancha, não é tóxico e é facilmente removido com papel toalha ao final do exame.

Como o transdutor (sonda) é movimentado pelo profissional

Com o gel aplicado, o profissional desliza o transdutor sobre a pele com leve pressão, realizando movimentos de varredura em diferentes ângulos e planos. Essa mobilidade permite obter cortes longitudinais, transversais e oblíquos da estrutura avaliada, construindo mentalmente um mapa tridimensional da anatomia do paciente a partir de imagens bidimensionais em tempo real.

Em alguns momentos, o profissional pode pedir ao paciente que inspire fundo e prenda a respiração por alguns segundos — isso desloca o diafragma e melhora a visualização de órgãos como o fígado e o baço. Também pode ser solicitado que o paciente mude de posição (decúbito lateral, por exemplo) para avaliar a mobilidade de estruturas ou afastar alças intestinais cheias de gás, que prejudicam a propagação das ondas sonoras.

Duração média do exame e o que acontece ao final

A duração varia conforme o tipo de exame. Um ultrassom de abdome total dura entre 15 e 30 minutos. Exames mais complexos, como o morfológico obstétrico, podem levar de 30 a 60 minutos. Ao final, o gel é removido da pele do paciente com papel absorvente. O profissional que realiza o exame — quando é o próprio médico radiologista — pode já fornecer impressões iniciais, mas o laudo formal é elaborado posteriormente e entregue em prazo que varia de minutos a dias, dependendo da clínica.

Tipos de ultrassonografia e quando cada um é indicado

A ultrassonografia é uma das modalidades diagnósticas mais versáteis da medicina, cobrindo praticamente todos os sistemas do corpo humano. Cada tipo possui indicações específicas, técnica própria e, em muitos casos, preparo diferenciado.

Ultrassom de abdome total: o que avalia e como se preparar

O ultrassom de abdome total avalia fígado, vesícula biliar, vias biliares, pâncreas, baço, rins, adrenais e grandes vasos abdominais. É solicitado para investigar dor abdominal, alterações em exames laboratorais (como enzimas hepáticas elevadas), suspeita de cálculos biliares ou renais, hepatoesplenomegalia e rastreamento de massas abdominais. Exige jejum de 4 a 6 horas e, idealmente, bexiga cheia para avaliação da pelve.

Ultrassonografia transvaginal: como é feita e indicações

Neste exame, o transdutor é introduzido no interior da vagina após ser coberto por uma capa protetora descartável e lubrificado com gel. Por estar mais próximo dos órgãos pélvicos (útero e ovários), oferece imagens com resolução muito superior à do ultrassom abdominal pélvico convencional. É indicado para avaliação de ciclos menstruais irregulares, síndrome dos ovários policísticos, miomas, pólipos endometriais, infertilidade e acompanhamento de folículos em tratamentos de reprodução assistida.

Ultrassom obstétrico e pré-natal: acompanhamento da gestação

O ultrassom obstétrico é um dos exames mais realizados na medicina. No primeiro trimestre, avalia a viabilidade da gestação, localização do embrião, batimentos cardíacos fetais e, entre 11 e 14 semanas, a translucência nucal. No segundo trimestre, o ultrassom morfológico (entre 20 e 24 semanas) avalia detalhadamente a anatomia fetal. No terceiro trimestre, monitora crescimento, posição fetal, volume de líquido amniótico e maturidade placentária.

Ultrassom da mama: quando é preferível ao mamograma

O ultrassom mamário é o método de escolha para mulheres jovens (abaixo de 35 anos) com mamas densas, nas quais o mamograma tem menor sensibilidade. Também é utilizado como complemento ao mamograma para caracterizar nódulos detectados, diferenciar cistos de nódulos sólidos e guiar biópsias. Não substitui o mamograma no rastreamento de câncer de mama em mulheres acima de 40 anos, mas é complementar a ele.

Ultrassonografia do globo ocular: como é realizada

O ultrassom ocular é realizado com o paciente com os olhos fechados, aplicando-se gel sobre as pálpebras. Avalia estruturas internas do olho como o vítreo, a retina e o nervo óptico. É indicado quando a visualização direta do fundo do olho é impossível — por exemplo, em casos de catarata densa, hemorragia vítrea ou trauma ocular.

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Outros tipos: tireoide, próstata, musculoesquelético e Doppler

  • Tireoide: avalia nódulos, bócio, tireoidites e guia punções para biópsia (PAAF).
  • Próstata transretal: o transdutor é introduzido pelo reto para avaliação detalhada da glândula prostática, com maior resolução que a via abdominal.
  • Musculoesquelético: avalia tendões, músculos, bursas e ligamentos, sendo muito usado em lesões esportivas e doenças reumáticas.
  • Doppler: modalidade que avalia o fluxo sanguíneo em vasos, indicada para diagnóstico de trombose venosa profunda, insuficiência arterial periférica, estenoses e avaliação vascular fetal.

Como se preparar para a ultrassonografia: orientações por tipo de exame

O preparo correto é determinante para a qualidade diagnóstica do exame. Um preparo inadequado pode gerar imagens de baixa qualidade, obrigar o reagendamento e atrasar o diagnóstico.

Preparo para ultrassom abdominal: jejum e bexiga cheia

O jejum de 4 a 6 horas (alguns serviços pedem 8 horas) é necessário para reduzir gases intestinais e garantir que a vesícula biliar esteja distendida — quando vazia de alimento, ela contém bile e fica bem visível; após a alimentação, ela se contrai e dificulta a avaliação. Para avaliação da pelve junto ao abdome total, o paciente deve ingerir cerca de 1 litro de água entre 1 e 2 horas antes do exame e não urinar, mantendo a bexiga cheia, que serve como “janela acústica” para visualização do útero e ovários.

Preparo para ultrassom transvaginal e pélvico

Para o ultrassom transvaginal, a bexiga deve estar vazia ou com pouco volume de urina, ao contrário do exame abdominal. Isso ocorre porque a bexiga distendida empurra o útero para longe do transdutor transvaginal, prejudicando a visualização. Já para o ultrassom pélvico abdominal (feito por cima da barriga), a bexiga cheia é necessária, pelo mesmo motivo descrito para o abdome total.

Preparo para ultrassom obstétrico por trimestre de gestação

No primeiro trimestre (até 13 semanas), recomenda-se bexiga cheia para o exame abdominal, pois o útero ainda está dentro da pelve. A partir do segundo trimestre, o útero cresce e sai da pelve, tornando-se facilmente visualizável sem necessidade de bexiga cheia. O ultrassom morfológico do segundo trimestre não exige preparo especial. No terceiro trimestre, também não há preparo específico.

Exames que não exigem preparo especial

Vários tipos de ultrassonografia não requerem nenhum preparo prévio. Entre eles estão: ultrassom de tireoide, de mama, musculoesquelético, de globo ocular, de partes moles e Doppler vascular de membros. Nesses casos, o paciente pode se alimentar e hidratar normalmente antes do exame.

O que a ultrassonografia consegue detectar

A ultrassonografia é uma ferramenta diagnóstica de grande abrangência, capaz de identificar alterações estruturais em praticamente todos os sistemas do corpo.

Diagnósticos mais comuns em cada região do corpo

  • Abdome: cálculos biliares e renais, esteatose hepática, cirrose, esplenomegalia, cistos, tumores sólidos, ascite e aneurisma de aorta abdominal.
  • Pelve feminina: miomas uterinos, cistos ovarianos, endometriose, pólipos endometriais, gravidez ectópica e malformações uterinas.
  • Mama: cistos simples e complexos, fibroadenomas, nódulos suspeitos e linfonodos axilares alterados.
  • Tireoide: nódulos (benignos e suspeitos de malignidade), bócio multinodular e tireoidite de Hashimoto.
  • Vasos: trombose venosa profunda, insuficiência venosa crônica, estenose de artérias carótidas e renais.
  • Musculoesquelético: rupturas tendinosas, bursites, cistos sinoviais e coleções líquidas periarticulares.

Limitações do exame: quando outros métodos de imagem são necessários

A ultrassonografia tem limitações importantes que o paciente precisa conhecer. Ossos e estruturas atrás deles não são avaliáveis, pois o osso reflete praticamente toda a energia sonora. Gás intestinal é o principal inimigo do exame abdominal — alças distendidas de gás bloqueiam a visualização de estruturas profundas como o pâncreas. Pacientes obesos também apresentam maior dificuldade técnica, pois o tecido adiposo absorve e dispersa as ondas sonoras.

Para avaliação do cérebro, medula espinhal, articulações complexas e estruturas profundas em pacientes obesos, a ressonância magnética é superior. Para avaliação pulmonar detalhada, lesões ósseas e traumatismos, a tomografia computadorizada é o método de escolha. É importante que o médico solicitante escolha o método mais adequado para cada situação clínica.

A ultrassonografia é segura? Riscos e contraindicações

A segurança da ultrassonografia é um dos seus maiores diferenciais em relação a outros métodos de imagem, especialmente quando comparada a modalidades que utilizam radiação ionizante.

Uso de ondas sonoras versus radiação: por que é considerado seguro

Ao contrário da radiografia, tomografia e medicina nuclear, a ultrassonografia não utiliza radiação ionizante. Ondas sonoras são formas de energia mecânica que não têm capacidade de ionizar átomos nem de danificar o DNA celular. Por isso, não há risco de indução de câncer ou de efeitos estocásticos associados ao exame. Isso diferencia completamente a ultrassonografia de modalidades como o raio-X — onde conceitos como dose efetiva na radiologia e dose efetiva e dose equivalente são fundamentais para o controle da exposição do paciente e do profissional.

Os únicos efeitos físicos das ondas ultrassônicas nos tecidos são o aquecimento térmico leve e o efeito cavitacional (formação e colapso de microbolhas), ambos de magnitude insignificante nas intensidades utilizadas em diagnóstico clínico. Os equipamentos modernos são regulados para manter esses efeitos muito abaixo de qualquer limiar de dano tecidual.

Segurança na gestação e em crianças

Décadas de uso clínico e centenas de estudos não demonstraram qualquer efeito adverso do ultrassom diagnóstico sobre o feto ou sobre crianças. A Organização Mundial da Saúde e todas as principais sociedades de radiologia e obstetrícia consideram o exame seguro durante toda a gestação, quando realizado com indicação clínica e por profissional habilitado. O princípio ALARA (tão baixo quanto razoavelmente possível), embora mais associado à radiação ionizante, também é aplicado na ultrassonografia: o exame deve ser realizado pelo menor tempo necessário e com a menor potência suficiente para obter as imagens diagnósticas.

Não existem contraindicações absolutas à ultrassonografia diagnóstica. A única ressalva prática é o uso de gel e da sonda em regiões com feridas abertas ou lesões cutâneas, situação em que o profissional deve adaptar a técnica.

Perguntas frequentes sobre ultrassonografia

Preciso de pedido médico para fazer ultrassonografia?

Formalmente, sim. A ultrassonografia é um exame complementar que deve ser solicitado por um profissional de saúde habilitado — médico, dentista (para exames de cabeça e pescoço) ou outros conforme regulamentação vigente. Algumas clínicas particulares realizam o exame sem solicitação, mas essa prática não é recomendada, pois sem contexto clínico adequado o laudo perde parte de seu valor diagnóstico e o paciente pode não receber o preparo correto.

Quanto tempo leva para sair o resultado da ultrassonografia?

Depende do serviço. Clínicas com médico radiologista presente podem entregar o laudo no mesmo dia, às vezes em minutos após o exame. Serviços que enviam as imagens para laudar remotamente (telerradiologia) podem levar de algumas horas a 48 horas. Exames de urgência têm laudos priorizados. O paciente deve sempre perguntar ao agendar o exame qual é o prazo de entrega do laudo.

O gel usado no ultrassom faz mal à pele?

Não. O gel condutor utilizado na ultrassonografia é à base d’água, hipoalergênico, não tóxico e não deixa resíduos permanentes na pele. Pessoas com pele muito sensível ou com histórico de dermatite de contato devem informar ao profissional antes do exame, mas reações alérgicas ao gel são extremamente raras. O gel é facilmente removido com papel toalha ou lavagem com água.

Posso fazer ultrassom durante a menstruação?

Sim, para a maioria dos tipos de ultrassonografia. O ultrassom abdominal, de tireoide, mama e outros exames de partes moles não são afetados pelo período menstrual. O ultrassom transvaginal pode ser realizado durante a menstruação sem problemas técnicos ou de segurança. Em alguns casos, o médico pode até preferir realizar o exame em fases específicas do ciclo para avaliar melhor o endométrio ou os folículos ovarianos — o que deve ser orientado na solicitação do exame.

Qual a diferença entre ultrassom 2D, 3D e 4D?

O ultrassom 2D é o padrão diagnóstico — gera imagens em cortes planos em tempo real, em tons de cinza. É o mais utilizado para diagnóstico clínico. O 3D reconstrói um volume tridimensional a partir de múltiplos cortes 2D, gerando imagens estáticas de superfície — útil para avaliação de malformações faciais fetais e anatomia uterina. O 4D é o 3D em tempo real (a quarta dimensão é o tempo), permitindo visualizar movimentos fetais em três dimensões. Os modos 3D e 4D têm valor clínico em situações específicas, mas o diagnóstico principal continua sendo feito com o 2D convencional.

O plano de saúde cobre a ultrassonografia?

Em geral, sim. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) obriga as operadoras a cobrir os procedimentos previstos no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, que inclui os principais tipos de ultrassonografia. No entanto, podem existir carências para planos recém-contratados, necessidade de autorização prévia para alguns exames e restrições à rede credenciada. O paciente deve verificar as condições específicas do seu plano antes de agendar.

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